AULAS 8 E 9 (16 e 21/03) – DIÁRIO DE BORDO – DANIEL GALERA (5) – PRIMEIRO ESBOÇO DE ENSAIO

 

Da geração 2000 à geração 0020: o realismo enganoso de Daniel Galera

(Esboço 1)

A trilha

tinha terminado num abismo.

 Saí

apressado em direção ao Bom Fim,

sem rumo definido.

(GALERA, 2016, p. 189)

           Bernardo Carvalho começa o pequeno ensaio “Minha Cegueira” (publicado na revista Literatura e Sociedade da USP em 2005) contando que demorou a entender que as pessoas não liam seus livros como ele mesmo os lia, para enfim admitir que a deficiência talvez não fosse dos leitores. Na conclusão do texto, adverte para que não se confie, então, no que ele tem a dizer sobre seus próprios livros.

           Todavia, é comum que autores, especialmente os da geração posterior à de Carvalho, forneçam interpretações de suas obras que visivelmente não fazem jus à riqueza de seus textos. Por isso, deveria valer o saudável em cima do muro assumido por Ricardo Lísias, por exemplo, quando afirma que “com o livro publicado, eu me torno mais um dos leitores e não gosto muito de ocupar nenhum tipo de espaço especial na construção de sentidos do livro, ainda que por uma questão de assinatura, o meu nome acabe acarretando isso”.[1]

            Voltando ao ensaio de Bernardo Carvalho, tem ele um explícito inimigo declarado, ainda que obviamente seus praticantes não sejam identificados: “uma tendência cíclica na literatura brasileira, e que hoje me parece estar se tornando de novo um paradigma. No Brasil, é comum tratar a literatura como documento histórico ou sociológico. E privilegiar a literatura que mais se presta a isso.” Essa tendência, a que Carvalho chama “naturalismo”, não percebe ou finge ignorar que “[t]udo em literatura é criação, do aparente documento à ficção mais inverossímil”, é própria dos autores que supostamente deixariam vir à fala a “voz das ruas”, mas não só destes, pois “[o] mais curioso é que esse naturalismo também norteia autores das novas gerações que procuram falar de si com maior veracidade”.

            Não creio que Bernardo Carvalho estivesse pensando em Daniel Galera como participando dessa tendência – ainda que Mãos de Cavalo tenha sido já aproximado “da visão cientificista do naturalismo” por Aguiar (2010, p. 74), para quem, inclusive, “[o] ato criador de Galera propositadamente procura apagar as marcas de ficcionalidade do texto” (ibid.). Não discuto a validade da asserção de Aguiar, pois se refere ao segundo romance de Galera (sobre o qual, no entanto, pensamos ser mais percuciente a leitura de Cunha (2011, p. 452), que encontra nele um “sofisticado trabalho com a linguagem literária”, assim como percebe, em Cordilheira, uma “sofisticada estrutura narrativa” (2011, p. 453)), mas para Meia-Noite e Vinte ela seria absolutamente errônea, pois as “marcas de ficcionalidade” deste último, construídas com muita habilidade, são o que o distinguem do realismo vulgar.[2]

            É evidente que uma das estratégias mais características de Galera é a ênfase em descrições que garantam o efeito do real de sua ficção (cf. ASSIS, 2014), e mesmo a abundância medida de elementos da cultura pop em Meia-Noite e Vinte, por exemplo, poderia indiciar sua filiação ao tal naturalismo, ao captar não propriamente a voz das ruas, mas o léxico comum a uma classe média descolada que transita especialmente pelas vias virtuais. Porém, em sentido contrário àquele que enxergaria no romance um simples caso de realismo-naturalismo, esperamos mostrar como o romance exibe as marcas de sua construção a partir de pequenas trucagens que têm como um de seus efeitos reforçar a coesão das partes do livro. Explicitamos, a seguir, algumas delas, apenas as que tentaremos desenvolver posteriormente:

            É o travesti que interage com Aurora no início (chamando a atenção para a temática de gênero já desde o princípio do livro), e que retorna perto do final, quando é Emiliano agora que está sentado na calçada, depois da meia-noite, chocado com o que descobrira sobre Andrei; é Emiliano que sugere a Aurora sentar na cara do professor César, repetindo o que vira no filme de Duque e Antero; é Antero, no final do excurso de dez páginas sobre o Marquês de Sade, cuja “narrativa algorítmica” “é um procedimento semelhante a uma análise combinatória”, que é propriamente o “procedimento sádico”, assim como, na sequência, explica as ideias de Giane sobre a narrativa dos videogames como sendo ela “procedimental”, o mesmo conceito que Galera utiliza para distingui-la da narrativa literária em seu ensaio de 2008 sobre os jogos de computador (assim como o pequeno Passage, jogo de cinco minutos que é exemplo frequente quando fala sobre o assunto, aparece no livro através do filme de Buster Keaton que Aurora relembra para si, transgredindo mais uma vez a fronteira entre autor e narrador, ou vida e obra); também o episódio metaficcional que discute o realismo, a partir do trabalho da mãe de Aurora, que enquadrou o anúncio de revista transgressor (assim como, no final do mesmo capítulo, Aurora pensa ser uma “transgressão” sentir o cheiro azedo e perfumado de seu pai convalescente) que continha uma cicatriz de cesariana – e os nomes dos personagens nunca são gratuitos neste livro, como o André, primeiro amor correspondido de Emiliano, dois anos depois do fora que levara de Andrei (etimologicamente ‘masculino’, ‘viril’[3]).

           E, finalmente, ainda no sentido de destacar as amarrações do texto, lançamos duas hipóteses, passíveis de discussão: encantada com o livro de Criptozoologia quando criança, Aurora decide seu primeiro “objetivo concreto” na vida: “encontrar o veado branco do pampa”, que faz parte da “aura enigmática da fauna ainda a descobrir” (GALERA, 2016, p. 27). O romance de Galera, como se sabe, termina com Aurora encontrando finalmente o tal bicho raro no sítio dos pais de Emiliano, contribuindo para a sensação, do leitor, de que o ciclo de dúvidas e ansiedade (palavra repetida várias vezes no livro) se fechara mesmo, e o que ela tem pela frente, e que já começou inclusive, é a experiência de “uma liberdade de um tipo que eu nem suspeitava existir” (p. 19), o que era somente uma possibilidade, como também poderia ser “perseguida até a morte pelo fracasso e pela perda”, no caso de tentar mudar radicalmente de vida devido à insatisfação com aquela que estava levando.

            No entanto, recapitulemos o trecho do enredo em que ela decide realmente passar alguns dias sozinha no sítio: logo depois de ter postado no Facebook a carta para Duque, fingindo que ele estaria vivo, escondido em algum lugar e acompanhando a repercussão da notícia de sua morte, e Emiliano ter telefonado então imediatamente para ela, preocupado mas entrando na brincadeira e contando que Duque está no sítio da virada do milênio, mas pedira para que essa informação fosse mantida em segredo absoluto. A nossa hipótese, aqui, tomando como dado a construção engenhosa da trama, é que Aurora, junto com o leitor, encontra de fato o veado branco do pampa, em seguida à descoberta de Emiliano sobre a atração que Dukelsky nutria, em segredo, pelo amigo. Acreditamos ser possível o estabelecimento da relação entre o “veado branco do pampa” e Andrei Dukelsky porque, além de ambos serem ditos, igualmente, “enigmas”, o calão “veado” (com ‘e’ mesmo, e não ‘i’) é utilizado exatamente por Emiliano, e três vezes (p. 169; 171), com o sentido de homem gay. E mais uma quarta quando Antero fila vários cigarros de Emiliano, que o chama então mentalmente de “veadinho” (p. 49).

           Esse tópico deverá ser desenvolvido localizando Meia-Noite e Vinte no fluxo dos textos de Galera, autor que chegou a ser criticado por sua dicção excessivamente masculina nos dois primeiros livros, e quando afinou a sua ‘voz’ em Mãos de Cavalo, estranhamente abriu mão dela logo a seguir, para criar uma protagonista mulher em Cordilheira. Segundo nossa hipótese, esse terceiro romance pode ter sido movido pelo desejo de dar uma resposta a esses comentários (ver trecho de entrevista do autor e comentário em AZEVEDO. 2015, p. 244), no sentido de provar que pode ser versátil, se quiser – ao contrário de outros, que demarcaram seu estilo muito pessoal, a sua ‘voz’, e dela não abrem mão – tendo então se liberado para publicar seu livro de maior sucesso, Barba Ensopada de Sangue, voltando à sua ‘voz’ original, e deixando claro que a questão de gênero não é mais problema para ele. Aliás, o mesmo Bernardo Carvalho havia percebido esse trânsito de Galera já desde o primeiro livro, os contos de Dentes Gaurdados, na elogiosa resenha que fez para a Folha de São Paulo, ressaltando que especialmente no conto “Triângulo”, ele “joga de uma forma traiçoeira com as pretensas identidades sexuais” e que Galera “ironiza por tabela o clichê da escrita de macho, aquela que se pretende mais autêntica por ser feita de suor e sangue” (CARVALHO, 2002. Grifo nosso.). Dentro dessa linha de raciocínio, o desfecho da história de Emiliano e, principalmente, a surpreendente revelação final sobre Duque, são a resposta definitiva do autor de Meia-Noite e Vinte para os patrulheiros da crítica.

            O último ponto desta prévia de análise, a ser também desenvolvido mais adiante, é o sentido do título do livro, que, se escrito “00:20”, ao invés dos números por extenso, é mais facilmente visualizado. De um lado, percebe-se uma mudança em relação ao Mãos de Cavalo, no qual os capítulos que narram o passeio de carro do Hermano adulto, prestes a enfrentar e vencer o trauma que carrega desde a adolescência, possuem títulos que são todos apenas os horários em que o presente da rememoração vai acontecendo, compreendido entre “6h08” e “8h04”.

            Por outro lado, cremos que o título do romance foi escolhido pelo fato de ser anagrama de “2000”, o ano seguinte ao ápice da vida dos personagens, já então todos em descenso (“e logo depois caíram as torres gêmeas” (p. 92)), aquele em que não houve o bug do milênio, frustrando as expectativas apocalípticas de muitos (lembremos que Francine tentou até engatar, na época, um estudo antropológico em uma comunidade que havia se preparado, na virada do milênio, para o fim do mundo; enquanto Duque, em 2014, anacronicamente, ainda reunia material apocalíptico para servir de base a seu próximo livro – o que corrobora nossa hipótese de que Duque teria sido o único que não passou pela fase de transformação que seus amigos passaram, o único que ficou preso ao passado). Trocando em miúdos: Antero, Aurora e Emiliano, cada um a sua maneira, caminharam, transitaram de 2000 a 00:20; Duque, o líder do grupo, ídolo dos Orangotangos, sofria com os pés-de-barro que ocultava, e sua vida de suicida virtual, que não havia andado, foi interrompida definitivamente por causa de um telefone celular, que estava conectado a um aplicativo de corridas. (No entanto, como Aurora viu o veado branco no sítio já em 0020, isso só pode significar um final positivo também para o personagem Andrei, libertado depois da morte no desfecho do livro…)

DLS

[1] [Os dois parágrafos iniciais do ensaio estão ainda perdidos em relação ao conjunto. A intenção é exemplificá-los com transcrições de trechos de entrevistas de Galera e de Simone Campos]

[2] Semelhante àquele que Alfredo Bosi encontra, por exemplo, no autor de A Moreninha: “Em [Joaquim Manuel de] Macedo a veracidade dos costumes fluminenses aparece distorcida pela cumplicidade tácita com a leitora que quer ora rir, ora chorar, de onde resulta um realismo de segunda mão, não raro rasteiro e lamuriento” (BOSI, História Concisa…, p. 132). Seria transformar Daniel Galera meramente em um produtor de best-sellers ao gosto dos fregueses, e não atentar para o potencial crítico embutido no alto nível de elaboração formal de sua ficção.

[3] Cunha (2011, p. 459-460) procedeu à análise dos nomes próprios de Cordilheira. Em Meia-Noite e Vinte os casos são ainda mais evidentes, como “Duque”, o líder do grupo, e “Aurora”, que representa as primeiras manifestações de qualquer coisa (Houaiss), o que assume muita importância para o entendimento do final da estória, e para livrar de vez o livro da pecha de niilista que alguns leitores já lhe imputavam.

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